
O forte cheiro de gás que deixou apreensiva a população de Campos nos últimos dias teve origem num vazamento de gás na empresa Corbion (antiga Purac Síntese), no bairro da Lapa, onde ocorreu um vazamento. Em comunicado à imprensa, a multinacional admitiu que existe “correlação entre a abertura de uma válvula de segurança do reator anaeróbico em sua estação de tratamento de águas residuais e as reclamações de odores em alguns pontos da cidade”. Além de manifestações da empresa sobre o acidente, moradores e ambientalistas também questionaram o posicionamento da empresa em seu comunicado vago à imprensa, assim como a posição tímida do Inea (Instituto Estadual do Ambiente) e da prefeitura. Na série de reportagens que o Campos 24 Horas publica a partir de hoje sobre o "Caso Corbion", um ambientalista local foi ouvido e faz muitos questionamentos, sobretudo se o gás que vazou pode afetar a saúde humana e se a atividade desenvolvida pela empresa pode ser na área urbana de Campos. (Leia a matéria completa abaixo)
“O mais importante é saber a composição dos gases que teriam escapado. Quais os tipos de gás que escaparam do vazamento, qual o seu grau de toxidade e corrosividade e os prejuízos de quem inalou a substância. Até onde eu li, a Corbion não informou nada disso”, criticou o professor e ambientalista Marcos Pedlowski, da Uenf (Universidade Estadual do Norte Fluminense). (Leia mais abaixo)
Outra questão, avalia o professor, diz respeito a dúvida quanto a existência ou não de mecanismos de proteção para evitar este e outros tipos de acidentes, além da falta de transparência. “A primeira questão é que quando uma empresa está situada dentro área urbana com potencial poluidor deveria ter mecanismos de salvaguarda mais precisos para reduzir as chances de um erro como esse. Há também a questão da transparência porque o comunicado da empresa é pouquíssimo transparente”, acrescentou.
A empresa acrescentou também "ter sido foi realizada uma minuciosa apuração interna, nas últimas duas semanas, inclusive com uma investigação completa da válvula de segurança por um especialista externo. “Para limitar as chances de recorrência de reclamações de odores, a Corbion iniciou algumas medidas, tanto de natureza técnica (como a instalação de novos detectores de gás que registram as emissões de forma contínua e de que direção vêm), quanto nas áreas de processos, comportamento humano e treinamento operacional”, informou a empresa
IMPACTO DA POLUIÇÃO EM CAMPOS
Pedlowski também questionou a falta de responsabilização da empresa e omissão das autoridades. “Do ponto de vista das responsabilidades, o impacto da poluição pela emissão de gases ao longo de alguns dias pode ter afetado pessoas. Então, o correto seria a empresa identificar se houve pessoas afetadas e tentar por uma triagem saber quem foi afetado, se alguém passou mal ou precisa ser medicado”.
O ambientalista analisa também que se houvesse um mínimo de controle de atividades de emissão de poluentes, o poder público já estaria fazendo a sua parte para uma atividade preventiva e fiscalizadora. (Leia mais abaixo)
— Mas como aqui temos um governo municipal paralisado, eu esperava que o Ministério Público fizesse isso. Porque o que aconteceu foi um acidente industrial com emissão de poluentes de áreas próximas de influência direta e indireta. Teria que haver uma responsabilização da empresa, algo que não foi feito também pelo Inea, por exemplo. A empresa espera as pessoas se irritarem para dar uma desculpa num comunicado que não explica absolutamente nada — finalizou.
A professora aposentada Débora Silva, 74 anos, moradora no Centro, disse que a preocupação foi “medonha” porque não havia explicação que apareceu um pouco tarde.
— Eu já tenho problemas de sinusite, fiquei muito preocupada porque não sabia de onde vinha o problema, se era de algum vizinho que viajou e esqueceu de fechar o botijão do gás. Essa explicação da empresa também foi fraca.
O Instituto Estadual do Ambiente (Inea), órgão vinculado à Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade (Seas), informa que “a empresa possui licença ambiental de operação e a Estação de Tratamento de Efluentes está inserida na licença”
“Após as denúncias de forte odor na região de Campos, o instituto realizou duas vistorias, uma coleta de amostras de água e notificou a empresa Corbion para que apresentasse o relatório operacional da Estação de Tratamento de Efluentes. Na documentação apresentada pela empresa, consta que houve erro operacional na estação, que resultou no odor percebido pela população”, continua ainda o comunicado. (Leia mais abaixo)
A nota do Inea afirma ainda que “exigiu à empresa providências para a solução do caso e segue monitorando as atividades do empreendimento”.