Enquanto dispara o número de infectados e mortos com o novo coronavírus no mundo, o Brasil vive uma outra escalada impressionante e aparentemente silenciosa de uma das enfermidades que mais matam no planeta: as doenças do coração e do cérebro, com destaque para o infarto do miocárdio e do acidente vascular cerebral (AVC). Mas, a cidade de Campos tem praticamente pronta uma estrutura para um “Centro de urgência em doenças do coração e do cérebro”. A revelação foi feita ao Campos 24 Horas pelo autor do projeto: o médico neurologista Makhoul Moussallem. Ele pertenceu ao estafe do prefeito Rafael Diniz até o final de março. Deixou o governo no mesmo período dos que tinham cargo de confiança e vão disputar a eleição deste ano. Porém, declara que a disputa eleitoral não tem mais vez em sua agenda. Aos 75 anos, Makhoul é autor de um projeto transformador da área de saúde pública, que faz com que os carentes tenham atendimento de urgência cardiológica e cerebral. De acordo com o projeto, um paciente pobre pode ser até transportado de helicóptero. Ele ainda fala sobre o coronavírus em Campos e disputa eleitoral. Confira a entrevista abaixo:
ENTREVISTA (Leia mais abaixo)
O entrevistado trata-se de um médico descendente de libaneses que na adolescência e juventude adorava jogar suas peladas no antigo Jardim do Alah, próximo ao Mercado Municipal, em Campos. Foi presidente por dois mandatos da Sociedade Fluminense de Medicina. Formou-se em medicina em 1969, na Universidade Federal Fluminense, em Niterói, apenas 14 anos após chegar ao Brasil. Soma intensa contribuição em sua folha de serviços, na fundação da Unimed; na transformação do Álvaro Alvim num hospital-escola, em 2007, quando presidente da Fundação Benedito Pereira Nunes, mantenedora da instituição e da própria Faculdade de Medicina de Campos; ou na implantação do pronto-socorro no Hospital Ferreira Machado, em 1976.
Campos 24 Horas - Num momento em que as deficiências da saúde pública de Campos são muito questionadas, quais são as condições para que o seu projeto seja realizado no Hospital da Beneficência? É verdade que uma estrutura de excelência, praticamente está pronta para funcionar, e podemos ter num futuro próximo o Centro de Urgência em Doenças do Coração e do Cérebro, projeto idealizado pelo senhor enquanto era assessor especial da Prefeitura de Campos?
Makhoul Moussallem - “A Beneficência é uma instituição agora bem mais aparelhada, com 50 leitos de UTI (Unidade de Tratamento Intensivo), um heliponto que permitirá o pouso de helicópteros para um atendimento mais ágil a pacientes que tiverem necessidade de transporte aéreo. Em 2008 tentei implantar o projeto, me chamaram de visionário, que eu era maluco em querer transportar pobre de helicóptero para fazer cirurgia. Mas vamos fazer.
C24H- Nos fale sobre como seria o funcionamento desse Centro de urgência em doenças do coração e do cérebro?
Makhoul - “O prefeito Rafael Diniz sabia que eu tinha este projeto. Conversamos bastante, ele me disse que me daria todas condições para implementá-lo, e estamos colocando em prática. Essas doenças são as que mais matam no mundo. Mas está comprovado que essas mortes podem ser evitadas se o atendimento for feito num período até três horas após o evento. Começamos em janeiro e fevereiro a implantação, mas veio o coronavírus e interrompeu o andamento dos trabalhos. Mas esse tsunami (do coronavírus) vai passar logo”. (Leia mais abaixo)
C24H - Analise a crise devido a pandemia como um advento que “chegou na pior hora”.
Makhoul - "Chegou realmente na pior hora, quando o mundo saía de uma crise e buscava se reerguer, enquanto Campos e o Estado do Rio atravessam uma grave crise em suas finanças públicas. Ainda não se tem uma ideia bem clara de qual o alcance do coronavírus. Eu não creio nessas previsões com estimativas de que tantos milhões vão morrer ou ficar infectados. Tem muita gente arrotando regras e falando com absoluta segurança num fenômeno que está sendo ainda investigado. Nem os caras que pesquisam isso a fundo fazem essas projeções. É tudo ainda muito imprevisível"
C24H - Queremos aproveitar para saber sua opinião sobre as condições de Campos para enfrentar essa pandemia do coronavírus e o pacote de medidas da Prefeitura?
Makhoul - O prefeito tem feito bem o dever de casa, atuando com firmeza e ciente da gravidade da situação. Campos tem dado um bom exemplo, buscando as articulações com outros entes, e as ações tem sido bem executadas. Assim como o governador Wilson Witzel, com um trabalho tem sido muito bem feito,com uma postura de estadista, liderando uma campanha rigorosa de isolamento social e também buscando soluções para minimizar os efeitos do vírus em seu Estado”.
C24H - Quais as medidas que destaca como as mais importantes de Campos? (Leia mais abaixo)
Makhoul - "Entre as medidas do prefeito, a implantação do Centro de Combate ao Coronavírus, no prédio do Hospital da Beneficência Portuguesa acabou sendo também requisitado administrativamente pela prefeitura para ser referência no enfrentamento ao Covid-19, além da instalação de um hospital de campanha, na Avenida 28 de Março, no Parque Santo Amaro"
C24H - Com toda sua experiência, aos 75 anos, como está sua rotina como médico e o que pensa do isolamento social?
Makhoul - “Eu parei, quase só atendo pelo celular, estou com 75 anos, minha secretária tem 67. O paciente me liga, eu já conheço o histórico dele, faço a prescrição e entrego na portaria do prédio. Pelo menos até o final de maio essa vai ser minha rotina. O confinamento vai permitir que o sistema de saúde esteja preparado para ter condições de atendimento. Porque em nenhum país, por mais rico que seja, o sistema está preparado para uma avalanche de atendimentos. Neste momento é preciso agir com racionalidade. Não chegamos aos índices de mortalidade de outros países, é verdade, mas mesmo assim os casos de infectados já abarrotam o sistema”.
C24H - O senhor já foi candidato a prefeito, com votação acima de 60 mil votos. Ainda tem planos eleitorais?
Makhoul - "Fui candidato a prefeito, tive 61 mil votos, mas hoje a política não é a minha praia, essa política que aí está não é pra mim. Enquanto a maioria pensar na barriga e no bolso, vai ser sempre isso aí, com uma baixa qualidade em nossa representação, que cai de vereadores até deputados, em sua grande maioria. Eu provei da política, não gostei e caí fora. Não quero mais. Também não haverá nenhum problema, porque aquele que não quiser se candidatar pode voltar depois ao cargo e continuar a contribuir com seus projetos, com suas ideias”. (Leia mais abaixo)
HOMEMAGEM - No março do ano passado, Makhoul foi homenageado pelas comunidades médica e acadêmica da Faculdade de Medicina de Campos (FMC), onde lecionou por 41 anos, durante a Jornada de Interiorização do Conhecimento, organizada pela Sociedade de Neurocirurgia do Rio de Janeiro (SNCRJ).